A minha superfície aparenta uma sublime calma que eu não possuo. Aparenta um semblante tranquilo, com uma legenda de plenitude, que não cabe ao meu coração sentir. Tentando em vão desenhar um sentimento extensivo de sossego, para quem sabe assim verdadeiramente senti-lo.
Sou um caos internamente. Um amontoado de informações e conhecimentos absorvidos via sites, livros, pessoas que diariamente alimentam meu software e tantas outras vezes travam todo o meu sistema psicológico. Não sei o que fizeram com a minha geração ou quais exatos pilares me moldaram uma pessoa tão obcecada pelo domínio, mas sei as consequências desastrosas da falta de equilíbrio.
Sei que a minha vontade não é dominar, propriamente, o mundo. Mas o mundo em que estou inserida, sendo ele meu trabalho, meu pessoal, minha inteligência, minhas relações, minhas emoções, minha estética, meus hábitos, minhas vontades e impulsividades. Minha comida.
Veja só a relação com a comida.
Eu me pergunto se estou com fome e algumas dessas vezes, muito pontualmente, percebo que não. Estou satisfeita e consigo fazer boas escolhas de consumo. Quando vou ao supermercado almoçar e não estou ansiosa ou há horas privada de alimento, me dou conta que faço escolhas saudáveis e em quantidade suficiente.
Mas em momentos de estresse... Ansiedade... Tristeza...Confusão...Raiva e insatisfação eu me vejo correndo para a padaria mais próxima (pode ser a mais distante também), para "descontar", ops, errado, para buscar conforto no prazer que a comida oferece. E assim foram 12 kg acima do peso. Que desastre!
Por muitos meses eu agi carrascalmente na reprovação dessas atitudes. Me castigando com dietas que me privassem daqueles "elementos-chaves" responsáveis pelo meu sobre-peso. Outra grande bobagem, desde quando restringir leva alguém a algum lugar?
Retirar o carboidrato da minha vida só me fez pensar ainda mais em carboidrato. Dizer que não poderia comer doce, voltava o meu pensamento ao açúcar. Ou seja proibir tornam esses alimentos ainda mais atrativos.
Não funciona.
Agora identificar os verdadeiros "elementos-chaves", as raízes reais da minha disfunção alimentar é um caminho assertivo. E pra lidar com essas raízes de forma madura e honesta eu precisei em um primeiro momento entender três pontos.
Primeiro, eu não sou gorda. Eu estou com o peso acima do ideal de IMC pro meu corpo. Segundo, eu não nunca fui magra, eu sempre tive um corpo com formas, curvas e pernas rechonchudas. Terceiro, eu não sou apenas o meu corpo. Mas ele é o meu lar. Minha casa.
Com esses três pontos em evidência eu posso trabalhar a minha autoestima estética, porque essas afirmações me garantem que eu entendo que não sou os meus 12 kg e também não sou o padrão fitness publicitário de instagram, que sinceramente (opinião minha e sem valor algum), não passa de outro tipo de escravidão cultuada e propagada por todos os níveis de rede.
O auge dessa reflexão é a consciência de que eu resido nesse corpo e eu preciso cuidá-lo, inclusive, alimentá-lo. Mas não sob extremos, mas com a interpretação do que é necessário a ele, seja comida, amor, paciência, carinho ou respeito.
Compreender que eu preciso me fazer carinho foi uma jornada e tanto. Me dá carinho é um desafio diário, somos propensos a nos difamar mas ficamos envergonhados quando recebemos elogios. Maluco né?
Pois é, dessa loucura eu não quero mais.
Eu quero amor. De mim pra eu mesma. A minha barriga está aqui, praticamente sobrepondo a minha teoria de que se você consegue enxergar a "pancinha" a frente do volume dos seios é hora de preocupar-se. Mas a presença dela não precisa ser motivo de infelicidade, que tal sentir-se desafiada? É o que eu digo pra mim hoje.
Está infeliz? Procure sua felicidade. E seja obcecado em encontrá-la, mas pelas razões certas. Ninguém encontra a felicidade na magreza, no bumbum sem celulite e nas pernas torneadas. Mas encontra felicidade quando promove a própria beleza e respeita a sua singular forma de existir no mundo!
Ataque os problemas certos. ;)